SDR Portugal: “Uma embalagem usada deixa de representar um fim”
A partir de 10 de abril de 2026, entra em funcionamento um sistema que vai muito além da recolha de embalagens. O Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) introduz um novo fluxo inverso à escala nacional, ligando consumidores, retalho, operadores logísticos e indústria da reciclagem, e posicionando a embalagem como um ativo rastreável dentro da cadeia de abastecimento.
“A entrada em vigor do SDR representa um marco histórico para Portugal, porque simboliza a transição para um modelo circular em que cada embalagem de bebida tem valor”, afirma Miguel Mira, Diretor de Operações e Logística do SDR Portugal. Para quem está a desenhar a arquitetura operacional do sistema, o desafio é garantir que todos os elementos — da recolha à reciclagem — estão plenamente funcionais desde o primeiro dia.
Uma infraestrutura logística à escala nacional
Descrito como uma das maiores infraestruturas logísticas criadas em Portugal nas últimas décadas, o SDR assenta em três pilares operacionais. O primeiro é a recolha junto do consumidor, assegurada por cerca de 2.500 máquinas automáticas de devolução (RVM), complementadas por 48 quiosques RVM Bulk, com um papel particularmente relevante no canal HORECA.
“O objetivo é garantir conveniência e tornar a devolução de embalagens um gesto rotineiro, acessível a qualquer cidadão, independentemente da sua localização”, sublinha Miguel Mira.
O segundo pilar diz respeito à recolha, transporte e consolidação das embalagens, num fluxo controlado e monitorizado digitalmente. Cada unidade recolhida é rastreada até aos centros de contagem e triagem, assegurando integridade do material e fiabilidade do sistema. O terceiro pilar é a triagem e reciclagem, onde tecnologias avançadas permitem atingir níveis de pureza próximos dos 98%, condição essencial para o retorno das embalagens ao ciclo produtivo.
Com o SDR, a logística inversa deixa de ser um complemento e passa a assumir um papel central na cadeia de abastecimento. “Cada embalagem devolvida é monitorizada digitalmente, criando uma pegada que garante rastreabilidade, transparência e controlo ao longo de todo o circuito”, explica o responsável.
Este novo fluxo exigirá operadores especializados, veículos adequados, processos rigorosos e competências específicas. Embora parte da capacidade logística nacional consiga absorver estes volumes, o sistema deverá impulsionar novos modelos de especialização, sobretudo em rotas de logística dedicada e de elevada capilaridade.
Retalho e HORECA: adaptação e flexibilidade operacional
Para o retalho alimentar, o SDR implica mudanças práticas ao nível do layout, da operação diária e da gestão das embalagens devolvidas. No caso do HORECA — responsável por cerca de 50% das embalagens abrangidas — os desafios são ainda mais específicos, devido à recolha manual, limitações de espaço e forte sazonalidade associada ao turismo.
“Estamos a trabalhar modelos híbridos que combinam logística inversa, logística dedicada e pontos de devolução de grande capacidade, para garantir eficiência e continuidade do sistema”, refere Miguel Mira.
A rastreabilidade total é assegurada por códigos EAN específicos, registos em tempo real, sacos selados com identificação única e auditorias independentes. Todos os intervenientes terão acesso a dashboards online, com indicadores de desempenho como volumes recolhidos, eficiência de rotas, não conformidades e qualidade do material.
Este nível de controlo é determinante para cumprir as metas europeias de 90% de recolha até 2029 e 65% de incorporação de material reciclado até 2040.
“Uma embalagem usada deixa de representar um fim”, resume Miguel Mira. “Passa a ser matéria-prima de alta qualidade, reintegrada no processo produtivo com o menor recurso possível a matérias-primas virgens.”
Nos primeiros cinco anos, o SDR deverá desencadear uma transformação profunda na cadeia de abastecimento portuguesa, com impacto na organização logística, na digitalização dos fluxos e na forma como o valor é criado e recuperado ao longo do ciclo das embalagens.
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