Um café com Javier Viudes Mollá, DC Automation & Engineering Manager na Sprinter (JD Group)

Javier Viudes Mollá

Empack e L&A Porto: Javier, a partir da sua função na Sprinter, de que forma a automação impacta o dia a dia de um centro de distribuição como os do JD Group?

Javier: O impacto é total e direto. Num centro de distribuição com este nível de tecnologia, praticamente todos os movimentos dependem de os sistemas funcionarem como um relógio. Por isso, a minha prioridade é alcançar a excelência na operação, monitorização e manutenção. Queremos que a equipa de produção se possa concentrar a 100% em cumprir os seus objetivos, com a total tranquilidade de saber que a tecnologia irá responder sempre e não será motivo de preocupação.

Na realidade, a minha função vai muito além de simplesmente “gerir máquinas”. A minha verdadeira prioridade é garantir que a tecnologia evolui em total sintonia com o ritmo da nossa cadeia de abastecimento. Entendo a automação como o sistema nervoso que sustenta as nossas instalações, e a missão da minha equipa é assegurar que este motor funciona sempre com o máximo desempenho e precisão.

O verdadeiro valor sente-se quando eliminamos tarefas pesadas, repetitivas e de baixo valor acrescentado, permitindo que a nossa equipa se concentre na estratégia e na resolução daqueles imprevistos em que o critério humano é insubstituível. Em suma, concebemos cada melhoria para que toda essa complexidade técnica se traduza numa operação robusta, flexível e, acima de tudo, produtiva.

Empack e L&A Porto: O setor do retalho exige rapidez e flexibilidade. Que desafios implica adaptar as operações logísticas a um ritmo tão dinâmico?

Javier: O maior desafio é evitar que a tecnologia se transforme numa “gaiola dourada”: instalações muito potentes, mas tão rígidas que não deixam margem de manobra. Por isso, focamo-nos na construção de uma arquitetura logística elástica. Não nos podemos permitir soluções fechadas para os problemas de hoje; precisamos de infraestruturas modulares que nos permitam adaptar-nos, quer perante uma mudança estratégica, quer perante qualquer imprevisto do dia a dia.

Essa verdadeira flexibilidade nasce da integração total entre hardware e software. Ao coordenarmos ambos os universos a partir do nosso departamento, temos a vantagem de otimizar os processos de ponta a ponta. Podemos ajustar desde a interface de um terminal móvel de picking ou o sistema SCADA até redesenhar a expansão de um sorter. Isto dá-nos as ferramentas necessárias para que a tecnologia se adapte às necessidades da produção e não o contrário.

É algo que temos presente desde o início: o objetivo nunca é apenas “ser rápidos”, mas sim ser ágeis, porque é isso que nos permite responder a um mercado que nunca para.

Empack e L&A Porto: A engenharia e a tecnologia são pilares da intralogística atual. Que soluções estão a fazer a diferença em termos de eficiência e produtividade?

Javier: Em instalações de elevada capacidade, que movimentam milhões de unidades, o acesso aos dados não é uma opção, é o mapa que nos impede de avançar às cegas. Hoje, a diferença não é feita apenas pela máquina mais rápida, mas pelos sistemas com capacidade de decisão em tempo real.

Gerir uma instalação automática complexa exige que cada decisão seja baseada em dados precisos, permitindo antecipar estrangulamentos e implementar manutenção preditiva de elevado valor. Se acrescentarmos Inteligência Artificial a este fluxo de informação, a tomada de decisão torna-se mais simples e a produtividade aumenta significativamente.

Mas, se há algo que aprendi ao longo deste percurso, é que a tecnologia, por mais avançada que seja, não faz milagres por si só. A melhor solução disponível no mercado continuará sempre a ser uma equipa humana qualificada, comprometida e motivada. Sem esse motor humano, nenhuma ferramenta tecnológica é suficiente para alcançar a excelência.

Nesse sentido, tenho a enorme sorte de trabalhar todos os dias ao lado dos melhores profissionais.

Empack e L&A Porto: Feiras como a Logistics & Automation permitem conhecer de perto novas tecnologias e tendências. Que valor acrescentam estes encontros à sua atividade profissional?

Javier: Estas feiras representam aquele momento essencial de “pausa técnica”, que nos permite sair da rotina diária e comparar o nosso plano estratégico com a realidade do mercado. São o local ideal para validar se novas soluções podem trazer valor real às nossas necessidades internas.

No entanto, para mim, o que realmente faz a diferença é a possibilidade de partilhar aqueles desafios e obstáculos que todos encontramos pelo caminho. Conversar diretamente com outros profissionais do setor proporciona uma visão realista e prática dos problemas, algo que nunca encontraremos na descrição de um catálogo comercial.

Empack e L&A Porto: E para terminar este café… que conselhos daria a alguém que está a iniciar o seu percurso no mundo do retalho?

Javier: Se pretende ter impacto neste setor, não se limite aos KPI apresentados nos dashboards. Vá ao armazém, observe e compreenda o esforço que está por detrás de cada movimento e de cada operação. A verdadeira otimização nasce da compreensão do fluxo físico e não apenas do fluxo digital.

Não permita que a rotina diária o impeça de questionar se existe uma forma mais inteligente de movimentar cada caixa. Essa curiosidade de ir além da superfície das operações é o que evita que os processos se tornem obsoletos e, no final, é o que permite liderar a mudança num setor que se reinventa todos os dias.