Um café com… André Machado, Senior Director & Country Lead Portugal, Logicor
Empack e Logistics & Automation Porto: Para começar, poderia falar-nos um pouco sobre o seu percurso profissional e o que o levou até à Logicor e à sua atual função como Senior Director & Country Lead?
André Machado: O meu percurso na Logicor começou em 2015, num momento que coincidiu com as primeiras aquisições da empresa em Portugal. Licenciei-me em Economia pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e, logo após a conclusão da licenciatura, ingressei como estagiário na CBRE Portugal. Nessa função, tive contacto com três áreas distintas do sector imobiliário: Retalho, Capital Markets e Avaliações. Esta etapa foi determinante, não só por me proporcionar uma visão global do sector, mas também por consolidar o meu interesse na área. Após este período, passei para a Imopolis SGFII, na altura um fundo detido e gerido pela JP Morgan Asset Management. Ali, fui responsável pela área de leasing, gerindo contratos de arrendamento e operações de ocupação de espaços comerciais.
Empack e Logistics & Automation Porto: O setor logístico tem evoluído rapidamente nos últimos anos. Na sua perspetiva, quais são hoje os principais desafios e oportunidades no desenvolvimento de novas infraestruturas logísticas?
André Machado: Considero que o setor atravessa uma fase de grande dinamismo, na qual a principal oportunidade reside na modernização e regeneração do mercado através da transformação de ativos obsoletos e de brownfields em propriedades de classe A. Este foco na reabilitação profunda permite contornar a escassez de solo e garantir que as infraestruturas cumprem os mais exigentes padrões de eficiência técnica e sustentabilidade, como a certificação BREEAM Excellent. Além disso, a descentralização da atividade logística através de hubs regionais de proximidade oferece a oportunidade de otimizar as cadeias de abastecimento e aproximar os bens dos consumidores, reforçando a resiliência do setor.
Os maiores desafios centram-se no desequilíbrio estrutural entre uma procura robusta e a evidente escassez de oferta qualificada, particularmente nos eixos prime de Lisboa e do Porto.
Empack e Logistics & Automation Porto: Com o crescimento do e-commerce e a transformação das cadeias de abastecimento, que papel desempenham hoje os parques logísticos na competitividade das empresas?
André Machado: Acredito que parques logísticos modernos e bem distribuídos não servem apenas para armazenamento, mas funcionam como infraestruturas críticas que asseguram o fluxo diário do comércio num mundo imprevisível. Hoje, constituem pilares estratégicos de competitividade e permitem que as empresas respondam à aceleração do comércio eletrónico através de infraestruturas de alto rendimento que otimizam a eficiência operacional. A transição para modelos descentralizados, com hubs de proximidade, é fundamental, uma vez que permite colocar os produtos mais perto dos consumidores, reduzindo tempos de transporte e aumentando a resiliência das cadeias de abastecimento face a choques externos.
Existem vários projetos estratégicos no nosso portefólio em Portugal que exemplificam a nossa aposta nas necessidades do mercado. Em Santo Tirso, o Ermida Park situa-se no norte do país, oferecendo mais de 40.000 m² de área bruta locável distribuídos por dois armazéns contíguos (Ermida I e II) e destacando-se pela sua modularidade, eficiência energética e localização estratégica a apenas 30 km do Porto. O projeto foi concebido com padrões de sustentabilidade que incluem a certificação BREEAM Very Good.
Na região de Palmela, por exemplo, gerimos um dos eixos mais robustos do sul do país, com três propriedades que totalizam mais de 100.000 m². O Palmela 6 é um dos ativos mais emblemáticos, com uma área total de cerca de 46.870 m², altura livre de 10 metros e acesso direto à autoestrada A2, sendo um ativo essencial para operações de alto desempenho que ligam Lisboa a Setúbal. Temos também o Palmela 4, com cerca de 27.452 m², focado na eficiência energética, com iluminação LED, e o Palmela 3, que oferece soluções flexíveis para operadores que atuam ao longo do corredor Lisboa-Madrid.
No corredor logístico central, o armazém da Castanheira do Ribatejo constitui uma infraestrutura crítica de 15.768 m², ideal para empresas que necessitam de proximidade urbana e de acessos rodoviários robustos à área metropolitana de Lisboa. Adicionalmente, no Prime Logistics Hub, na Azambuja, concluímos recentemente uma expansão de 10.000 m², reforçando a capacidade de resposta numa das zonas de maior concentração de stock do país.
Empack e Logistics & Automation Porto: A sustentabilidade é um tema cada vez mais presente no setor imobiliário logístico. Como é que a Logicor integra esta preocupação no desenvolvimento e gestão dos seus ativos?
André Machado: O projeto de Canelas Logistics Park, em Vila Nova de Gaia, foi concebido para obter a certificação BREEAM Excellent e inclui uma instalação solar de 138 kW, com uma produção anual estimada em cerca de 194 MWh. Além da eficiência energética, o ativo integra iluminação LED, e uma arquitetura que visa minimizar o desperdício, estando estrategicamente localizado a apenas 12 km do centro do Porto.
Outro exemplo, é o projeto no Montijo (Barrão Hub) que segue o mesmo padrão de exigência, com os seus dois edifícios a contarem também com certificação BREEAM Excellent. Este complexo de 40.000 m² está equipado com sistemas de sprinklers, iluminação LED e instalações fotovoltaicas, destacando-se ainda pela preservação do ecossistema local através da doação de sobreiros à autarquia e do paisagismo de mais de 51.000 m² de espaços verdes.
Na Logicor, encaramos a sustentabilidade como um imperativo de proteção de valor a longo prazo, integrando critérios ESG rigorosos em todo o ciclo de vida dos ativos. Estes investimentos são um exemplo da forma como trabalhamos e mostram-se fundamentais para cumprirmos a nossa meta global de redução de emissões de gases com efeito de estufa em 36% até 2030, um objetivo para o qual a operação em Portugal já contribuiu com uma redução consolidada de 34% por metro quadrado no final de 2024.
Empack e Logistics & Automation Porto: Que tendências acredita que irão marcar o futuro da logística e das infraestruturas logísticas nos próximos anos?
André Machado: Acompanhando de perto o setor, acredito que o futuro será marcado pela transição para um mercado mais maduro, onde a reabilitação profunda de ativos obsoletos e a transformação de brownfields em propriedades de classe A serão os principais motores para satisfazer as exigências internacionais perante a escassez de solo. A sustentabilidade consolidar-se-á como um imperativo e assistiremos ainda a uma forte tendência de descentralização através de modelos de proximidade e hubs regionais estrategicamente distribuídos, que aproximam os bens dos consumidores e aumentam a resiliência das cadeias de abastecimento contra choques globais.
Empack e Logistics & Automation Porto: No próximo dia 22 de abril, participará numa mesa-redonda organizada pela Supply Chain Magazine no âmbito do LIB Forum. Na sua opinião, que importância têm encontros como a Empack e Logistics & Automation Porto para promover o debate, a partilha de conhecimento e o networking entre os diferentes agentes da cadeia logística?
André Machado: Ser Event Partner da Empack and Logistics & Automation Porto é um privilégio, porque reconhecemos a importância destes eventos para o crescimento do mercado nacional e para networking, para além do debate num momento em que Portugal se afirma cada vez mais como um destino estratégico para o investimento europeu, deixando de ser encarado apenas como um mercado periférico. A relevância destas iniciativas reside, acima de tudo, na capacidade de reunir os diferentes agentes do setor para discutir soluções para o profundo desequilíbrio estrutural entre a forte procura e a escassez de oferta qualificada.
São espaços privilegiados para a partilha de conhecimento, promovendo estratégias mais ágeis, como a reabilitação de brownfields e a modernização de ativos existentes. Além disso, o networking gerado permite alinhar as expectativas de investidores, promotores e ocupantes em torno de temas críticos, como os critérios ESG e a digitalização.
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