WEF: 76% dos economistas veem forte disrupção nas cadeias de abastecimento e transportes
A disrupção nas cadeias de abastecimento e nos serviços de transporte surge como um dos principais impactos económicos da crise no Médio Oriente, segundo a edição de maio de 2026 do Chief Economists’ Outlook, do World Economic Forum. O relatório indica que 76% dos chief economists inquiridos classificam o nível de perturbação no setor como elevado ou muito elevado, num contexto marcado pelo encerramento do Estreito de Ormuz, pressão sobre energia, fertilizantes e alimentos, e deterioração das perspetivas de crescimento global.
O setor de supply chain e transportes surge como o segundo mais afetado pela atual crise no Médio Oriente, apenas atrás de energia e materiais. De acordo com o World Economic Forum, 42% dos economistas-chefe classificam a disrupção nas cadeias de abastecimento e nos serviços de transporte como elevada e 34% como muito elevada.
O relatório sublinha que o encerramento do Estreito de Ormuz representa um dos cenários mais críticos para as cadeias de abastecimento globais, com efeitos que vão muito além da região do Golfo. Segundo o documento, cerca de 2.000 navios comerciais permaneciam retidos no Golfo no momento da elaboração do relatório, representando aproximadamente 5% da tonelagem global. O risco de disrupção mantém-se também no Mar Vermelho, levando o tráfego de petroleiros através do Cabo da Boa Esperança a atingir um novo máximo em abril.
A pressão sobre os fluxos marítimos está a agravar uma conjuntura já marcada por volatilidade, custos energéticos elevados e incerteza geopolítica. O World Economic Forum refere que, antes do conflito, cerca de 10% do comércio marítimo global em volume passava pelo Estreito de Ormuz. Com a interrupção das rotas, os fluxos de petróleo, gás natural liquefeito e produtos associados a fertilizantes foram afetados quase em simultâneo.
Para as cadeias de abastecimento, o problema não se limita ao transporte. O relatório aponta para impactos sucessivos sobre energia, matérias-primas, produção agrícola, indústria transformadora e retalho. A subida dos preços da energia é identificada como uma das principais fontes de pressão, com a maioria dos inquiridos a antecipar aumentos em várias geografias. Na Europa, 45% dos inquiridos esperam uma subida significativa dos preços da energia nos próximos 12 meses.
O documento alerta ainda que os efeitos poderão chegar com algum desfasamento a outros setores. Na agricultura, floresta e pescas, 49% classificam já o nível de disrupção como elevado ou muito elevado, mas o World Economic Forum admite que o impacto poderá aumentar quando a escassez de fertilizantes se fizer sentir de forma mais plena.
Fertilizantes e alimentos podem prolongar o choque
A ligação entre energia, transporte e alimentação é um dos pontos centrais do relatório. Segundo o World Economic Forum, até 30% dos fertilizantes comercializados internacionalmente passam normalmente pelo Estreito de Ormuz. A interrupção desses fluxos, associada à quebra nos envios de enxofre, amónia e outros produtos relacionados com fertilizantes, poderá pressionar os custos agrícolas e, mais tarde, os preços dos alimentos.
Mais de quatro em cada cinco economistas-chefe inquiridos antecipam aumentos ou aumentos significativos dos preços dos alimentos em todas as geografias analisadas. O risco é considerado particularmente agudo no Médio Oriente e Norte de África, onde vários países estão muito expostos a choques nos preços alimentares.
Embora o relatório indique que o impacto nos alimentos está a desenvolver-se de forma mais gradual do que o choque provocado pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia em 2022, o World Economic Forum alerta que uma disrupção prolongada no Estreito de Ormuz poderá transformar-se num choque alimentar relevante, ao reduzir a disponibilidade de fertilizantes e aumentar os custos de produção agrícola.
A crise no Médio Oriente surge num momento em que as perspetivas económicas globais já se encontram fragilizadas. Segundo o Chief Economists’ Outlook, 89% dos economistas-chefe inquiridos esperam que o crescimento global enfraqueça nos próximos 12 meses, enquanto 94% antecipam uma subida da inflação global.
Ainda assim, a maioria dos inquiridos não vê uma recessão global como iminente. O relatório indica que 58% discordam ou discordam fortemente da possibilidade de uma recessão global nos próximos 12 meses. A leitura é, contudo, pouco confortável: seis em cada dez economistas-chefe também não esperam que a economia global se torne mais resiliente no mesmo período.
De acordo com a mesma fonte, os processos de adaptação das cadeias de abastecimento e de reconfiguração dos sistemas energéticos levarão tempo. Mesmo que possam contribuir para maior resiliência no longo prazo, é pouco provável que esses efeitos sejam visíveis no espaço de um ano.
Multinacionais reavaliam geografias e risco
O novo contexto está também a alterar a forma como as empresas multinacionais avaliam os mercados. O relatório indica que os Estados Unidos, a Índia e o Sudeste Asiático surgem como os ambientes de negócio mais atrativos para multinacionais nos próximos 12 meses, combinando escala, flexibilidade estratégica e posicionamento nas cadeias de abastecimento.
A Europa surge em quarto lugar, valorizada pela previsibilidade regulatória, estabilidade e procura dos consumidores, apesar do enfraquecimento das perspetivas de crescimento e do risco de estagflação associado ao choque energético. Já o Médio Oriente e Norte de África não foram colocados por nenhum dos inquiridos entre os três ambientes de negócio mais atrativos para multinacionais no próximo ano, refletindo o peso atual do risco geopolítico.
O relatório deixa, assim, uma leitura clara para empresas e decisores: a geopolítica voltou a entrar diretamente no planeamento das cadeias de abastecimento. Transporte, energia, fertilizantes e alimentos estão hoje ligados por uma cadeia de risco comum, em que a disrupção de uma rota estratégica pode rapidamente transformar-se em pressão sobre custos, disponibilidade e decisões de sourcing à escala global.
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